O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

10.2.07

VI Domingo do Tempo Comum

(Carl Heinrich Bloch, o sermão da montanha, 1890, Copenhaga)


Nas Escrituras Santas lemos muitas vezes afirmações que proclamam a felicidade, a bem aventurança reservada ao crente que vive determinadas situações e assume comportamentos precisos. É chamado bem aventurado «quem encontra alegria nos ensinamentos do Senhor e os medita dia e noite» (Sl 1,5); é «feliz quem pensa no pobre» (Sl 41,2; cf. Pr 14,21); é «feliz o povo que tem como Deus o Senhor» (Sl 33,12)… Há no entanto também «maldições», isto é, admoestações, advertências, fortes chamadas de atenção, sobretudo nos livros proféticos: «Ai! dos que constroem a casa sem justiça» (Jer. 22,13); «Ai! do povo pecador» (Is 1,4)…

Também Jesus, em continuidade com os profetas, proclamou algumas bem aventuranças e anunciou algumas chamadas de atenção severas. Na sua pregação que é sempre um convite à conversão, à mudança de mentalidade e de vida, em vista do Reino de Deus que nele se fez muito próximo (cf. Mc 1,15), Jesus pronunciou várias vezes palavras respeitantes à pobreza e à riqueza, à fome e à saciedade, ao choro e ao riso, à hostilidade e ao aplauso coral. Se é verdade que não conhecemos com exactidão qual a forma das bem aventuranças na boca de Jesus, temos porém dois testemunhos fiéis nos evangelhos de Mateus e de Lucas. Temos assim que uma mesma mensagem nos é transmitidas em duas formas: as palavras de abertura do «discurso da montanha» em Mateus (Mt 5,1-12) e as palavras com as quais inicia o discurso numa planura, ou seja, o excerto sobre o qual hoje meditamos.

Porquê duas formas diversas das palavras de Jesus? Porque os evangelistas ao transcreverem estas palavras pensavam na suas comunidades cristãs, nas quais seriam anunciadas. Eis porque Mateus, que conhece a sua Igreja como igreja dos pobres, actualiza as palavras de Jesus proclamando felizes os que são «pobres em espírito» (Mt 5,3), isto é, pobres também no coração; Lucas, pelo contrário, em cuja comunidade há ainda muitos ricos, olha os discípulos pobres e a eles dirige as bem aventuranças: «Felizes vós discípulos que sois pobres; felizes vós que tendes fome; felizes vós que chorais; felizes vós que sois ultrajados pelo mundo. Mas ai de vós que sois ricos e saciados, ai de vós que rides e que todos aplaudem: estai atentos!»

São palavras talhantes como a espada (cf. Heb 4,12; Ap 1,16), dirigidas ao «vós» da assembleia cristã reunida e ouvinte e, como tais, capazes de provocar um salutar discernimento em cada um de nós. Quem se encontra numa condição de pobreza e de pranto sente dirigida a si a promessa de uma mudança radical da sua situação; quem se reconhece rico e farto deve saber com clareza que pende sobre ele uma ameaça, uma advertência amarga hoje que poderá ser uma maldição amanhã! Certamente esta mensagem é escandalosa, está nos antípodas do sentir mundano, do pensamento da maioria; mais, é literalmente incrível, não credível… Se porém colocamos à frente daquela multidão de crentes, daquele «vós», o próprio Jesus, o Pobre, Aquele que chora, o Perseguido, então compreenderemos também a possibilidade das bem aventuranças: aquele que viveu em plenitude as bem aventuranças é Jesus Cristo, e a nós é pedido simplesmente que sigamos a via por ele traçada.

Repensando na vida de Jesus, podemos então perguntar-nos com franqueza: quem é feliz, santo? O rico que dia após dia vê aumentar a sua solidão e o seu amor por si mesmo, ou o pobre que na sua indigência talvez tenha de abrir a mão para implorar uma esmola, mas que naquele gesto exprime a sua necessidade do outro, abrindo, assim, caminhos de partilha e de comunhão? É feliz quem está cheio e não procura nem espera nada, ou quem está sempre à procura de justiça humana e ansiando uma intervenção de Deus? É feliz quem na multidão ri, ou quem chora sabendo ter uma razão pela qual gastar toda a vida a caro preço, até a dar pelos outros, até morrer?

Sim, as bem aventuranças devem ressoar assim como são, sem serem amortecidas ou abafadas. Expondo-nos ao seu anúncio na assembleia dominical, nós devemos perceber nestas palavras a espada que divide os ricos, saciados e pândegos daqueles que são pobres, esfomeados, chorosos. Até nos perguntarmos: e nós onde estamos?

Enzo Bianchi
Prior de Bose

[trad: Mário Rui de Oliveira]

1 Comments:

  • Para desenvolvimento de meditação do texto das bem-aventuranças, e sua concretização existencial, recomenda-se vivamente: DE OLIVEIRA MÁRIO RUI, "O direito a viver do Evangelho", pontos 2.1.1. e 2.1.2.

    By Anonymous Anónimo, at 4:27 da tarde  

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