O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

26.5.07

Solenidade do Pentecostes


(Grão Vasco, Pentecostes)

Pentecostes
Ano C
Jo 14, 15-16.23-26

A grande festa do Pentecostes constitui a plenitude do evento pascal: Jesus Ressuscitado, subido aos céus e partícipe da senhoria de Deus, cumpre a promessa feita aos seus discípulos de lhes enviar o Espírito santo. E é exactamente na potencia do Espírito que a comunidade cristã pode testemunhar Cristo no meio de todos os homens, «nas suas respectivas línguas» (cf. At 2, 4.8.11).

Se para o povo de Israel o Pentecostes era a festa memorial do dom da Lei do Sinai, a festa da aliança, para a comunidade de Jesus o dom do Espírito é celebração da aliança nova, ultima, definitiva. Jesus não deixou «órfã» (cf. Jo 14,18) a sua comunidade, nem a ascensão ao céu representou uma separação que colocasse um fim na sua acção no mundo. A comunidade dos crentes, de facto, partilha com ele a mesma vida, o mesmo Espírito, e este habilita-a a prosseguir a sua acção na história: anunciar a boa nova do Evangelho, realizar o bem, empenhar-se por fazer recuar o domínio de Satanás. Como Jesus foi revestido da força do Espírito santo e assim habilitado para a missão (cf. At 10, 38), também assim a sua igreja, a partir do dia de Pentecostes…

No excerto evangélico de hoje meditamos sobre esta realidade escutando a promessa do Espírito santo feita por Jesus aos discípulos durante os chamados «discursos do adeus», aqueles nos quais, como Senhor vivente e glorioso, fala ainda hoje a nós. Jesus liga estritamente tal promessa ao amor: «se me amais, observareis os meus mandamentos. Eu rezarei ao Pai por vós e ele vos dará um outro Consolador para que permaneça convosco para sempre». O cristão é tal somente na medida em que ama o Senhor Jesus Cristo «com todo o coração, com toda a mente, com todas as forças» (Dt 6,5; Mc 12,30), o ama mais que as pessoas mais caras (Mt 10,37), o ama mais que a sua própria vida (cf. Mt 10,39). É vivendo neste amor que ele pode fazer a experiencia do Espírito santo, Espírito Consolador, Paráclito, «chamado ao lado», que actualiza a presença de Jesus — o primeiro Consolador dos seus discípulos (cf. 1 Jo 2,1)— e o socorre na canseira quotidiana da perseverança; Espírito de verdade, que o «guia à verdade inteira» (Jo 16,13): e para o cristão a verdade não é uma noção abstracta, mas uma pessoa, Jesus Cristo (cf. Jo 14, 6)!

Depois de novamente ter insistido sobre o amor por ele e pela sua palavra como possibilidade para o crente de acolher em si o amor do Pai e de se tornar sua morada, Jesus assinala a sua promessa com uma revelação decisiva: «o Consolador, o Espírito santo que o Pai mandará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que eu vos disse». Ou: o Espírito santo, hoje, conduz os discípulos a perceber e a assumir em profundidade aquelas realidades que, enquanto Jesus estava fisicamente com eles, não eram ainda capazes de acolher. Há tempos diversos na compreensão de Jesus Cristo e do mistério da salvação; há gestos e palavras de Jesus não imediatamente compreendidos pelos discípulos, assim como há um não-dito do qual será o Espírito santo a fazer-se interprete, ele que «não falará de si, mas dirá tudo o que terá ouvido e anunciará as coisas futuras» (Jo 16,13). Sim, no coração dos crentes o Espírito age tornando presente toda a vida de Cristo, enquanto ouvinte assíduo do Filho: ele é memória total da pessoa de Cristo, e assim ilumina o nosso agir quotidiano, até ao dia da Vinda do Senhor na glória.

Compreende-se então porque é que Jesus afirmou: «Quando vier o Consolador que vos mandará o Pai, o Espírito de verdade que procede do Pai, ele dará testemunho de mim; e também vós dareis testemunho de mim» (Jo 15, 26-27). Nós cristãos somos testemunhas de Jesus Cristo entre os homens (cf. Lc 24, 48; At 1,8), somos o seu corpo no mundo: esta é a nossa responsabilidade, mas esta é também a nossa alegria mais profunda, que nada nem ninguém nos poderá roubar (cf. Jo 16, 23). Sim, porque como cristãos vivemos do amor e no amor: amamos Jesus Cristo e Jesus Cristo ama-nos. Nós e Cristo vivemos juntos!

Enzo Bianchi
Prior de Bose
(trad: mro]

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