O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

7.4.07

«Não está aqui: ressuscitou!»


Bill Viola, First Light, 2002

VIGÍLIA PASCAL

O conjunto de leituras do Antigo Testamento mostra que a ressurreição de Jesus é o cumprimento do desígnio salvífico de Deus desdobrado desde a criação, através da libertação do Egipto e a história da salvação, até à manhã do primeiro dia da semana na qual do túmulo vazio se levanta o anúncio: «Não está aqui, ressuscitou» (Lc. 24, 6). O cumprimento das Escrituras é o evento pascal, a paixão, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, o Cristo (Lc 24, 7). O crente estará empenhado, desde o baptismo, a viver uma existência pascal: «considerai-vos mortos para o pecado, mas viventes para Deus, em Cristo Jesus» (Rom. 6,13).
«Porque procurais entre os mortos o vivente?» (lc 24, 5). A pergunta que as mulheres ouvem desde o túmulo vazio interpela os cristãos sobre a qualidade da sua busca de Cristo. Quem procuramos? O Vivente? O Ressuscitado? Aquele que cumpriu as Escrituras ou aquele que espelha as nossas esperanças? As mulheres no sepulcro, com a sua procura do corpo cadavérico para ser ungido e perfumado, restringem Jesus ao âmbito do seu afecto, do seu amor, certamente autêntico, mas que aprisiona Jesus na morte. A grelha afectiva, assim como a grelha politica dos dois discípulos de Emaús, é insuficiente para chegar a Jesus na sua verdade. É preciso ler e ver Jesus à luz das Escrituras e recebê-lo das Escrituras. De resto, Lucas fala de dois homens em vestes fulgurantes que aparecem às mulheres no túmulo. E na transfiguração «dois homens» (Lc 9, 30) dialogam com Jesus sobre o cumprimento da sua missão e do seu ministério: Moisés e Elias, ou a Lei e os Profetas. A Escritura conduz a Cristo e pede às nossas humanas procuras que se convertam em procura de Cristo através da Palavra de Deus. Só assim podemos alcançar Cristo, ou melhor, deixarmo-nos alcançar por Ele, e não encontrar nele aquilo que já conhecemos.
A busca das mulheres é corrigida pela advertência a «recordar as palavras que Jesus tinha dito» (Lc 24, 6.8). É como se elas procurassem um Jesus silenciado, um Jesus cujo corpo foi calado, um Jesus separado das palavras que pronunciou sobre si mesmo e com as quais tinha indicado o sentido da sua vida. Um Jesus cadáver, não vivificado nem sequer pelas palavras de vida que tinha dito. A recordação das suas palavras é essencial para encontrar Jesus.
Se a recordação das palavras de Jesus torna apóstolos as mulheres que, regressadas do sepulcro, se fizeram evangelizadoras, anunciando aos Onze o que tinha acontecido no sepulcro, eis que o grupo masculino da comunidade não crê nas mulheres e julga um devaneio as suas palavras. Se as mulheres não recordavam as palavras de Jesus, os homens não acreditam na palavra das mulheres que são privadas da palavra. E assim é silenciado o seu testemunho e a peculiaridade da sua procura que, embora com os seus limites, tinha sabido conduzi-las lá onde nenhum homem se tinha dirigido. Desde aquela alva primordial para o cristianismo, o grupo eclesial aparece atravessado por uma desconfiança do grupo masculino em relação com o grupo feminino e pela lógica do poder que se joga sobre quem detém a palavra, sobretudo a palavra última, decisiva. E isto, além de ser uma desautorização da condição pela qual na nova economia, em Cristo, «já não há homem ou mulher» (Gal. 3,28), é também um empobrecimento e uma diminuição da igreja, que deve aprender a viver e respirar com ambos os seus pulmões, que não são somente aquele oriental e ocidental, mas sobretudo, aquele masculino e feminino, presente em todas as comunidades.
Se as mulheres, chegadas ao sepulcro, tinha ficado na incerteza, na aporia, na perturbação, Pedro, o único a dirigir-se ao sepulcro depois do que elas contaram, permanece no espanto (Lc 24, 12). O caminho para a fé —e o caminho da fé— conhece também o espanto, a dúvida, a perplexidade, a desorientação, a incerteza. E esta conduz o crente a não julgar, mas a sentir-se vizinho de quem na sua busca não consegue ir além deste nível. «A fé não é para todos» (2 Tess 3,2) dirá S. Paulo.

(Comunidade de Bose)

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