O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

24.3.07

V Domingo da Quaresma


V DOMINGO DA QUARESMA
ANO C

Jo 8, 1-11


Tal como nos domingos precedentes, também a página evangélica de hoje constitui um urgente convite a meditar sobre a misericórdia de Deus narrada por Jesus Cristo no meio dos homens: a misericórdia, capaz de recriar o homem e de abrir um futuro a quem já não tem nenhuma esperança, pode impelir-nos à conversão dos nossos pensamentos e das nossas acções. É além disso significativo que o nosso texto tenha sido colocado no quarto evangelho só depois de ter peregrinado de um evangelho a outro, porque o seu conteúdo era considerado escandaloso pelos próprios cristãos…

De manhã cedo, Jesus dirige-se ao templo de Jerusalém e o povo acorre a Ele para escutar o seu ensinamento. E eis que se avizinham dele alguns escribas e fariseus: estes não suportam que Jesus tenha «vindo chamar os pecadores, não os justos» (cf. Lc 5, 32), nem conseguem perceber que ele «acolha os pecadores e coma com eles» (cf. Lc 15,2); tanto menos podem aceitar que ele lhes dirija a palavra: «os publicanos e as prostitutas vos precederão no reino de Deus» (Mt 21,31). Por isso «conduzem até si uma mulher surpreendida em adultério e, colocada no seu meio, dizem-lhe: ‘Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora, Moisés na Lei mandou que se lapidasse mulheres como esta. Tu que dizes?». O seu recurso à Lei é formalmente correcto (cf. Lv 20,10; Dt 22, 22-24), mas o seu coração está habitado pelo ódio e por más intenções: «tentam» Jesus, metem-no à prova para encontrar uma contradição entre ele e a Lei de Deus, de modo a poder condená-lo.

Eles esperam uma resposta, mas Jesus limita-se a escrever ironicamente com o dedo na terra até que, depois de muita insistência, exclama: «Quem de vós não tiver pecados atire a primeira pedra contra ela» Mas quem de nós não tem pecados? Em última instância, somo hábeis a esconder com cuidado os nossos pecados, apressando-nos a acusar com mais violência quem é forçado a mostrá-los publicamente: e assim não percebemos que o pecador manifesto é apenas o sinal visível da condição de cada um de nós, todos pecadores, todos necessitados da misericórdia de Deus como do pão quotidiano… Só Jesus, não tendo pecado (cf. 2 Cor 5,21; Heb 4,15; 1Jo 3,5), poderia atirar a pedra, mas não o faz. Então os acusadores retiram-se de mansinho, «um por um, a começar pelos mais velhos», deixando Jesus sozinho com a mulher: «ficaram só os dois, a mísera e a misericórdia», comenta com grande inteligência Santo Agostinho.

E eis a extraordinária conclusão da narração: «Levantando-se, Jesus disse-lhe: ‘Mulher, onde estão? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». E Jesus a ela: «Nem eu te condeno; vai e não voltes a pecar». Chamado a escolher entre a Lei e a misericórdia, Jesus escolhe a misericórdia sem se colocar contra a Lei, porque sabe distinguir o pecado do pecador. A Lei é essencial, qual instância capaz de indicar o pecado; mas uma vez infringida a Lei, diante do pecador concreto, deve reinar a misericórdia! Nenhuma condenação, só misericórdia: aqui está a unicidade de Jesus, comparando com o Antigo Testamento, mas —diga-se— também comparando com os comportamentos registados na vida da Igreja nascente. Porque sempre que Jesus encontrou um pecador absolveu-o dos seus pecados e nunca praticou uma justiça punitiva; exortou com força, pronunciou os «Ai de vós!» em vista do juízo, mas nunca castigou ninguém: Jesus sabia distinguir entre a condenação do pecado e a misericórdia para com o pecador.

Esta é a mensagem desconcertante da misericórdia de Deus que apaga todo o pecado, do seu perdão preveniente, mesmo a respeito da nossa conversão. Aqui está a singularidade escandalosa de Jesus, refutada por quem se sente justo, acolhida pelos pecadores: quem se reconhece pecador, de facto, pode experimentar que a misericórdia de Deus em Jesus Cristo torna possível cada dia um novo inicio. E assim é dado a cada um a capacidade de usar de misericórdia para com os outros, todos pecadores, todos cobertos da inexaurível misericórdia de Deus.

Enzo Bianchi
Prior de Bose
[Trad: Mário Rui de Oliveira]

1 Comments:

  • Sugestão:
    http://www.youtube.com/watch?v=suqXOozZjJY

    By Anonymous Anónimo, at 11:35 da tarde  

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