O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

27.1.07

IV Domingo do Tempo Comum




Estamos ainda na sinagoga de Nazaré, onde Jesus durante a liturgia do Sábado leu a profecia de Isaías sobre o profeta-servo de Deus convidado a levar a boa nova aos pobres, a proclamar a libertação aos oprimidos, a pregar o ano da misericórdia do Senhor (cf. Is 61,1-2). Jesus acaba de comentar estas palavras, dizendo aos habitantes de Nazaré que estavam ali presentes que elas se realizaram nele.

E eis que esta breve «homilia» impressiona os que a escutaram, os quais sentem as suas palavras como intrigantes, cheias de graça e de autoridade. Recordando a juventude percorrida por Jesus em Nazaré com a sua família, eles perguntam-se agora: «Não é ele o filho de José, o filho do carpinteiro?» Mas esta admiração pelas suas palavras não corresponde na realidade a uma verdadeira escuta de Jesus e à fé nele. E assim Jesus desde este seu primeiro gesto público se revela «sinal de contradição e que desvela os pensamentos mais profundos de muitos corações» (Lc 2,34-35), como tinha profetizado o velho Simeão acerca dele quando, quarenta dias depois do seu nascimento, lhe tinha sido apresentado no Templo.

Jesus repara nesta recusa da sua identidade, anunciada como realização pontual das palavras proféticas de Isaías. E exactamente porque não se detém nas impressões superficiais dos homens, mas olha os pensamentos que habitam seus corações (cf. Jo 2,24-25), quase se antecipa e denuncia as intenções dos seus interlocutores: «de certo me citareis o provérbio: Médico cura-te a ti mesmo, olha para ti, não nos faças o sermão a nós; cumpre mas é aqui também no meio de nós os milagres que realizaste em Cafarnaum, e então conheceremos quem tu és!» Eis desvelados os pensamentos dos seus corações, eis o não acolhimento de Jesus na sua cidade, entre os seus, em sua casa (cf. Jo 1,11)!

Depois Jesus pronuncia palavras que revelam um outro cumprimento realizado naquele dia: «Nenhum profeta é bem recebido em sua casa». Da falência da sua pregação ele não tira motivos de desconforto e desconsolação; pelo contrário, vê nesse acontecimento uma confirmação da sua identidade: ele é verdadeiramente um profeta e, como tal, só pode ser recusado pelos seus irmãos na fé. Por isso Jesus recorda aos seus concidadãos e aos seus familiares que nada de novo está a acontecer na sinagoga de Nazaré; pelo contrário, renova-se aquilo que sempre aconteceu a todos os profetas. Aconteceu a Elias, sustentado e ouvido apenas por uma velha viúva estrangeira, uma fenícia de Sarepta de Sidónia (cf 1Re 17); aconteceu a Eliseu, o sucessor de Elias, que pode operar a cura do leproso só em favor de um pagão, Naamã o sírio (cf 2Re 5). Sim, os profetas tiveram sempre acolhimento e ouvidos não entre os crentes de Israel, mas nos não crentes provenientes dos gentios: os crentes muitas vezes estão tão satisfeitos e seguros da sua pertença que deixam de estar abertos para acolher palavras e acções «novas», não esperadas e não previstas, da parte de Deus e dos seus profetas…

Mas estas palavras de Jesus fazem enfurecer ainda mais os presentes. Tinham ido à sinagoga para o culto semanal, para escutar a Palavra de Deus, e de fronte a esta Palavra feita carne em Jesus (cf. Jo 1,14) em verdade não acreditam; mais, chegam até a recusar Jesus e a querer matá-lo lançando-o abaixo do cimo de uma colina. Face a esta violência colectiva que se abate sobre ele, Jesus não reage, mas «passando pelo meio deles retoma o seu caminho», segue o seu caminho: «escutem ou não, um profeta está no meio deles…» (Ez 2,5)…

Acontecia no antigo Israel, aconteceu a Jesus, aconteceu e acontece dentro das igrejas: os profetas enviados por Deus são mais ouvidos pelos de fora que pelos próprios irmãos, são acolhidos mais facilmente pelos não crentes que pelos crentes, encontram maior acolhimento junto dos pecadores manifestos que por aqueles que se pensam justos e bons. E nós, nós que lemos esta página, estamos dispostos a não nos escandalizarmos com as palavras de Jesus?

Enzo Bianchi
Prior de Bose
(tradução de Mário Rui de Oliveira)

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