O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

8.5.08

A crise de Deus

O meu contributo para este blogue será, predominantemente, fruto das minhas leituras teológicas, seja de livros seja dos fenómenos mais diversificados. Nesse sentido, é uma proposta a que os leitores possam continuar essa actividade, pelos caminhos que considerarem mais adequados (João Duque)

“A crise que atravessa o cristianismo europeu não é principalmente nem exclusivamente uma crise eclesial… A crise converteu-se numa crise de Deus. E, enquanto tal, deixa de ser provincial ou confessional. Não afecta apenas as igrejas, não afecta só os cristãos, nem sequer apenas os europeus. Trata-se de uma crise da humanidade, pois Deus, ou é um tema que afecta a humanidade inteira ou carece, por completo, de interesse…

Esta crise de Deus não é fácil de diagnosticar, porque na actualidade, tanto dentro como fora do cristianismo, encontra-se envolvida numa atmosfera de positiva predisposição para a religião. Vivemos numa espécie de crise de Deus com cores religiosas. O slogan reza: «religião sim; Deus não!», ainda que este «não» não possua o carácter categórico próprio dos grandes ateísmos. Já não existem grandes ateísmos. Na época da crise de Deus, até o ateísmo se tornou banal. A disputa sobre a transcendência parece concluída; e o além, está definitivamente dissipado. E assim, o ateísmo de hoje pode voltar a falar de Deus – de forma distraída e informal – sem em realidade se referir a Ele: como metáfora flutuante, que se usa nas conversas das festas, no sofá do psicanalista, no discurso estético, ou como código para a legitimação da comunidade jurídica civil, etc.

A religião como nome para o sonho de felicidade sem sofrimento, como encantamento mítico da alma, como presunção psicológico-estética de inocência para o ser humano: sim. Mas Deus, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de Jesus?...

Até que ponto é compatível com a modernidade o discurso bíblico sobre Deus? Em que condições sobreviveu a todas a privatizações e funcionalizações da modernidade? E à transformação da metafísica em psicologia e estética? Como se adaptou ao petulante pluralismo das nossas sociedades liberais e ao turbilhão das suas extremas individualizações? Que aconteceu? Desapareceu definitivamente o inteligível, comunicativo e promissor poder da palavra de Deus? Que aconteceu com Deus?”

(Johann Baptist Metz, Memoria passionis. Una evocación provocadora en una sociedad pluralista, Santander: Sal Terrae, 2007)

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