O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

14.7.07

XV Domingo do Tempo Comum

(Rembrandt, «o bom samaritano»)

Ano C
Lc. 10, 25-37

Um doutor da Lei interroga Jesus colocando-lhe a pergunta essencial: «Mestre, que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?», uma vida que não termine aqui sobre a terra, mas continue para sempre, no Reino? A pergunta posta por este homem é extremamente séria; ela está porém viciada pela atitude que o move: «perguntou a Jesus para o colocar à prova». É o mesmo comportamento de Satanás (cf. Lc 4,2), é o daquele que entra no diálogo com Jesus não para viver as suas palavras, mas que se serve de todos os meios, mesmo da Lei de Deus, para lhe estender uma armadilha.

Jesus não polemiza, mas reenvia o seu interlocutor para a sua cátedra, convidando-o a responder por si mesmo: «O que está escrito na Lei? Como lês tu?». O outro fornece-lhe uma resposta impecável, citando duas passagens da Torah que, juntas, formam o primeiro e o mais importante dos mandamentos, o coração da vontade de Deus revelada nas Escrituras: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua mente e com todas as tuas forças (Dt 6,5) e o próximo como a ti mesmo (Lv 19, 18)». Trata-se de um preceito que não deve ser sequer comentado, mas vivido! Eis porque Jesus replica: «Respondeste bem. Faz isso e viverás», terás a vida eterna. Aqui poderia terminar o encontro…

Mas o doutor da Lei, evidentemente chocado pela natureza da afirmação: «Faz isso», começa a justificar-se. Ele procura um astuto atalho que lhe consinta auto-absolver-se, evitar o face a face com o seu próprio coração duplo, não disposto a realizar o que conhece como coisa boa que deve ser realizada. E o faz com uma pergunta genérica: «Quem é o meu próximo»? Sim, porque o que lhe inquieta é a aplicação do mandamento do amor. Ou, quem deve ser objecto do seu amor? O próximo? Os concidadãos? Os irmãos na fé? Os outros?

Eis então que Jesus põe com clareza este homem diante de si mesmo e diante da sua responsabilidade pessoal, contando-lhe aquela que é conhecida como a parábola do bom samaritano. Enquanto descia de Jerusalém para Jericó um homem foi assaltado por bandidos, que o derrubam e o deixam meio morto na berma da estrada. Junto dele passa um sacerdote e um levita, «homens religiosos» que conhecem bem a Lei de Deus, os quais fingem não vê-lo: fazem tudo para não parar, para não se aproximarem do desgraçado em perigo de vida, e assim são julgados por si mesmos como potenciais homicidas, distantes do irmão tanto quanto o são de Deus. Sobre aquela estrada passa depois um samaritano, o «inimigo» religioso para os judeus, o crente cismático e herético (cf. Lc 9,53; Jo 4,9). Ele aproxima-se do homem ‘meio morto’, faz-se próximo de quem precisa, toma conta dele: cura-lhe as feridas, carrega-o sobre o próprio jumento e leva-o a uma hospedaria onde dá instruções, prometendo pagar as despesas da sua estadia.

No fim da parábola Jesus põe ao doutor da Lei a pergunta crucial: «Quem destes três te parece ter sido próximo daquele homem que caiu nas mãos dos bandidos?». O outro responde: «Aquele que usou de misericórdia». E Jesus disse-lhe: «Vai e faz o mesmo». Deste modo reenvia-o à sua responsabilidade, indicando-lhe o que é preciso fazer para herdar a vida eterna: não só sentir misericórdia, mas fazer misericórdia àqueles que se encontram ao longo das estradas da vida, deixando-se tocar pela sua indigência… Isto vale também para nós, para o nosso quotidiano. Não devemos perguntar-nos: «quem é o meu próximo», mas «de quem me faço próximo, de quem me aproximo?». Podemos de facto passar uma vida inteira ao lado de outras pessoas sem nunca nos decidirmos a ir ao seu encontro e de fazer nossos os seus sofrimentos, isto é de não com-sofrer com eles…

Jesus pediu-nos que vivêssemos um amor concreto, real, depois de nos ter precedido, ele mesmo, neste caminho. É ele, de facto, segundo a interpretação dos mais antigos padres da Igreja, o bom Samaritano que, movido pela compaixão, se fez vizinho da humanidade prostrada e ferida; é ele que com toda a sua existência nos narrou as vísceras de misericórdia do Pai (cf. Lc 6,36); é ele que ainda hoje, depois da sua morte e ressurreição, diz a cada um de nós: «Trata bem do irmão e eu te recompensarei quando voltar»…

Enzo Bianchi
Prior de Bose
[trad: mro]

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