O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

6.6.07

CORPO E SANGUE DE CRISTO




ANO C
LC 9, 11-17


Celebramos hoje a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, memória dos gestos e das palavras de Jesus na última ceia, memória da eucaristia que reassume toda a sua existência, vida gasta e oferecida pelos irmãos até à morte. Este ano acedemos a tal mistério através da narração da multiplicação dos pães e dos peixes que prefigura o dom do pão da vida que Jesus fará com o seu gesto sobre o pão na vigília da sua paixão.

De regresso da missão «os apóstolos contaram a Jesus tudo o que fizeram» (Lc 9,10), e ele chama-os a retirar-se à parte, nos arredores de Betsaida, para ficarem a sós com ele e assim renovar a comunhão consigo: nesta intimidade com o seu Senhor e Mestre consiste a verdadeira possibilidade de retemperar-se oferecida por Jesus aos discípulos… Mas a multidão, vinda a saber desta fuga de improviso, mete-se no seu peugada: eles reclamam a presença de Jesus, a sua pessoa, porque com as suas palavras e as suas acções ele é o verdadeiro alimento capaz de saciar a fome de todo o homem. E eis que Jesus aceita fazer-se próximo de quantos têm necessidade: «acolhe a multidão, anuncia-lhes o Reino de Deus e cura quantos precisam de cura».

Rapidamente chega a noite e os Doze —conscientes da sua pobreza: «temos apenas cinco pães e dois peixes» — dirigem-se a Jesus pedindo-lhe que despeça as pessoas numerosas que o seguem a fim de que abandonando aquele lugar deserto possam dirigir-se às vilas mais próximas para encontrar alimento e alojamento. Mas o seu Mestre, que tinha recebido a multidão cumprindo tudo o que estava em seu poder para dar a eles a vida, não aceita o seu convite e solicita-lhes, com uma precisa ordem, como já tinha feito em outro tempo o profeta Eliseu (cf. 2Re 4,42-44): «Dai-lhes vós mesmos de comer». É uma ordem contra o bom senso, a razoabilidade, dado que os discípulos tinham manifestado a Jesus que a sua pobreza é um impedimento para realizar tudo quanto pede; mas Jesus exactamente naquela pobreza vislumbra o espaço necessário do dom, a condição na qual Deus pode mostrar a sua misericórdia e a sua bênção.

Jesus toma então com decisão a iniciativa e ordena que os cinquenta mil homens presentes se sentem por grupos de cinquenta (cf. Ex 18,24-26): «então ele tomou os cinco pães e os dois peixes e, levando os olhos ao céu, abençoou-o, partiu-o e deu-o aos discípulos para que os distribuíssem às multidões». É fundamental reconhecer a importância destes quatro verbos. São os mesmos utilizados para descrever a acção de Jesus na ultima ceia, quando ele tomou o pão, alimento necessário para a vida do homem; pronunciou sobre ele a bênção, deu graças a Deus, atestando de tal modo que o pão é fruto da terra e da bênção de Deus sobre o trabalho humano; partiu-o, com uma acção altamente expressiva, destinada a imprimir-se na mente dos discípulos (cf. Lc 24,35); deu-o aos seus comensais afirmando: «Tomai e comei, este é o meu corpo», a minha vida, isto é: «eu me dou a vós a fim de que vocês participem da minha própria vida» (cf. Lc 22,19). E é significativo que os dois discípulos de Emaús, mais tarde, reconheceram Jesus Ressuscitado exactamente quando ele cumprirá estas quatro acções (cf. Lc 24,30-31), sinal de uma vida gasta, entregue, repartida por amor aos homens.

«Todos comeram e ficaram saciados, e das partes que sobraram encheram doze cestos»: o nosso excerto conclui com esta anotação que testemunha a superabundância do dom de Jesus Cristo, oferecido a todos os homens. Jesus, portanto, é o profeta que faz sinais bem maiores que o Profeta Eliseu, e as doze cestas que sobraram —doze quantas as tribos de Israel— são o sinal daquela «medida boa, calcada, sacudida, transbordante» que será dada àqueles que sabem dar e partilhar (cf. Lc 6,38). Ele é verdadeiramente «o pão da vida» (Jo 6,35.48), é o Senhor que na eucaristia, sinal que sintetiza o sentido da sua inteira vida, nos comunica toda a sua existência: sim, o sacramento do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo infunde em quem participa nele as energias para viver como ele sempre viveu. Isto deveremos recordar todas as vezes que celebramos a Eucaristia; e a partir desta verdade deveremos contemplar não só a narração da multiplicação dos pães, mas toda a vida de Jesus narrada pelos evangelhos, modelo e marca para a nossa existência quotidiana.

Enzo Bianchi
Prior de Bose
[trad: mro]

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