O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

6.1.07

Epifania do Senhor



Celebramos hoje a Epifania do Senhor, ou seja a sua manifestação, a revelação às gentes de todo o mundo do menino nascido em Belém. Jesus foi dado à luz por Maria, a pobre filha de Israel, e os pastores, correndo à palavra que lhes foi dirigida pelo anjo, viram «um menino envolto em lençóis deposto numa manjedoira» (cf. Lc 2,7.12.16). Nascido em Belém, a cidade de David (cf. 1Sam 16), Jesus é descendente de David a quem diz respeito o titulo de Messias, de Rei dos Judeus; mas mesmo o evangelho de Mateus, assim radicado em ambiente judaico, coloca em evidencia que Jesus é o Salvador destinado a toda a humanidade e, portanto, a sua revelação é dirigida a todas as pessoas, aos pagãos, em cuja descendência também nós estamos inseridos.

Conhecemos bem o excerto evangélico que narra esta manifestação, desde sempre presente na tradição cristã, qual texto capaz de surpreender e iluminar o coração dos crentes de todos os tempos. Do oriente alguns Sábios, os Magos, vêm a Jerusalém, a cidade santa dos Judeus, numa espécie de peregrinação (cf. Is. 60, 1-6). Eles não pertencem à descendência de Abraão, não conhecem o Deus vivente e verdadeiro, não são circuncisos, não fazem, portanto, parte da aliança que tem como sinal esta incisão na carne. Na sua viagem não é portanto a Palavra de Deus a conduzi-los; e no entanto a sua busca de Deus, a sua luta anti-idolátrica, o seu meditar e perscrutar os sinais da natureza, concede-lhes a possibilidade de uma leitura visionária, que os impele a partir seguindo apenas a luz de uma estrela…

Obedientes à consciência nascida pela sua investigação, os Magos sobem a Jerusalém, decididos a interrogar a sapiência revelada a Israel, na esperança de ver preenchida a sua expectativa. Os sumos sacerdotes e os escribas, depositários da missão de intérpretes das profecias, respondem infalivelmente, embora permanecendo no escuro, cegos diante do cumprimento do evento messiânico, perturbados e cegos como o Rei Herodes. E assim recordam-nos que podemos ser muito profissionais no proteger o tesoiro das Escrituras santas, zelosos das nossas certezas de fé, e ao mesmo tempo sermos incapazes de reconhecer que Deus age e opera no nosso hoje e nos «visita constantemente, nos modos mais imprevisíveis… Ora, as Escrituras testemunham que o Rei dos Judeus deve nascer em Belém (cf. Mi 5, 1-3), e os Magos, agora já obedientes também à revelação, chegam à casa onde, uma vez dentro, como os pastores, «vêem o menino com Maria sua mãe». Também eles, como os pastores, contemplam uma cena humaníssima e pobre: mas essa é a revelação para os seus corações atentos, é a manifestação que provoca a sua adoração e a oferta dos dons mais preciosos.

Esta epifania, que através dos Magos chega às gentes pagãs, reforça e não anula a primogenitura de Israel, mas mete também em evidencia que aquele menino está destinado como bênção para toda a humanidade, segundo a promessa feita outrora a Abraão: «em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as gentes da terra» (Gen 28, 14; Gal 3,14). Sim, a universalidade da boa nova está afirmada já no momento do nascimento de Jesus, e o episódio dos Magos aparece como uma profecia que se cumprirá na história da Igreja, quando o Evangelho chegar a todas as culturas dos povos. Todas as culturas e tradição levam, de facto, em si as marcas, as «sementes» da palavra de Deus, como amavam dizer os padres da Igreja. Nessas estão presentes hálitos do Espírito santo que conduziu os homens sobre caminhos anti-idolátricos, na demanda de sentido; nesses está presente desde a eternidade a imagem de Deus que não pode nunca ser negada ou anulada (cf. Gen 1, 26-27): Jesus Cristo, «imagem do Deus invisível» (Col 1,15)…

A Epifania é a memória que Jesus, o Messias, o Filho de Deus e Filho do homem, está destinado à humanidade e que esta sabe reconhecê-lo, até participar na herança de Abraão. Não esqueçamos portanto: «em Jesus Cristo não há mais judeu nem grego» (Gal 3, 28), mas todos os homens da terra podem encontrar-se nele, «Sapiência de Deus» (1 Cor 1,24), fonte de alegria e de vida plena. Mas nós cristãos somos capazes de testemunhar a salvação definitiva trazida por Deus em Jesus Cristo, mediante um comportamento de cordial simpatia por todos?

Enzo Bianchi
Prior do Mosteiro de Bose

(tradução de Mário Rui de Oliveira)

1 Comments:

  • Aguarda-se ansiosamente o comentário ao evangelho do Ano A e do Ano B... :)

    Boa ideia, o link para os nossos irmãos ortodoxos. O azar é o material correspondente não se encontrar acessível (neste momento). Talvez esteja em revisão/actualização...
    Mesmo assim, para quem quiser um aperitivo, sugere-se a consulta de outra galeria do mesmo site: Biblioteca - Liturgia - Grande Bênção das Águas no Dia da Epifania. Recorde-se que a celebração ortodoxa se centra no acontecimento do Baptismo do Senhor...

    By Anonymous Anónimo, at 10:53 da tarde  

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