O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

20.8.06

Simpósio do clero em Fátima: Os encontros Arciprestais favorecem a comunhão, a fraternidade e o sentido de presbitério?


O tema proposto para esta pequena reflexão, apresenta-se em termos de uma questão, à qual terei de apresentar uma resposta unívoca e sem hesitações: SIM.
Lily Tomlin afirmou que “o ser humano inventou a linguagem para satisfazer a sua profunda necessidade de se queixar”. Olhando para aquilo que os meios de comunicação nos trazem e para muitas palavras que chegam até nós, temos de concordar em parte, contudo, não pretendo servir-me deste “tempo de antena” para me queixar, até porque não é a minha maneira de estar na vida.
Mais do que fazer valer uma argumentação teórica refinada pelos conceitos oriundos dos estudos complexos, apraz-me fazer uma pequena reflexão a partir da minha curta experiência como sacerdote de 8 anos, 6 dos quais como Arcipreste.
Começo por conduzir cada um de nós ao documento conciliar, já de todos conhecidos, base destes artigos de “preparação” para o Simpósio, Presbyterorum Ordinis, citando o nº 8: “Animados de espírito fraterno, os presbíteros não esqueçam a hospitalidade (…). Reúnam-se também espontaneamente e com alegria (…). Encontrem auxílio mútuo na vida espiritual e intelectual, para que mais facilmente possam cooperar no ministério e para se defenderem dos perigos da solidão que possam surgir, promova-se entre eles algum modo de vida comum (…) ou pelo menos ter reuniões frequentes e periódicas.”
Tendo como base de análise este texto, gostaria de colocar em comum 5 “dimensões” que dão conteúdo e expressão à comunhão e fraternidade presbiteral na vivência arciprestal.
Encontro – Como os Apóstolos, depois do envio, regressaram e se congregaram novamente como “Grupo” (Cf. Mc 6), assim, os sacerdotes de um Arciprestado, ao longo da labuta pastoral anual, encontram-se. Este simples facto de se encontrar já é altamente positivo, já que mostra uma atitude activa para ir ter com o(s) outro(s), trata-se do sair do seu (mundo, trabalho, local … ou até comodismo) e avançar para o encontro com aqueles que têm a mesma missão. O facto de se agruparem num mesmo local vindos de diferentes “caminhos” para se cumprimentarem, falarem, rezarem, trabalharem… é altamente positivo. Só os amigos –aqueles que se olham positivamente- se buscam e encontrando-se exteriorizam essa alegria do encontro. Nestes encontros é essencial que “Procuremos sempre olhar as virtudes e as coisas boas que virmos nos outros e tapar-lhes os defeitos” (Santa Teresa de Jesus), só assim poderemos percebermo-nos como amigos que queremos o bem de quem está à nossa frente. As reunião arciprestais deverão ser momentos “formais” desta alegria do encontro de irmãos.
Oração – O capítulo 6 de S. Marcos também refere que os discípulos depois do anúncio encontraram-se com Jesus, não se trata só de um encontro entre eles, mas com Aquele que é a razão do seu viver e da sua missão. Assim, o encontro arciprestal nunca poderá descurar a Oração, nela se “traduz” e manifesta a essencialidade do presbítero – homem de Deus, da oração e da espiritualidade. Na oração sentimos o laço que nos une e alargar-se ao Eterno (Deus) e a toda Igreja celeste e terrena, nela crescemos na santidade e abrimos o espírito para a iluminação do alto que nos guia e ampara. O descanso atinge aqui uma dimensão radical: com Deus e em Deus, no encontro dos irmãos, qualquer que seja o problema, a dificuldade, a ingratidão, a incompreensão… tudo encontra “repouso em Deus”, já que diante d’Ele tudo é pequeno. Amigos, de verdade, em Deus seremos sempre homens da esperança e da alegria.
A oração aparece-nos como um óptimo momento para o encontro connosco, com o íntimo de cada um, e é nesse encontro que fortalecemos o nosso ser, a nossa missão e que descobrimos o verdadeiro valor da vida, já que sem esta dimensão nos falta o essencial, porque "quando um homem não encontra a si mesmo, não encontra a nada"(Goethe).
Amizade – Quando o espaço, tempo ou tarefas afastam os verdadeiros amigos, ao reencontrarem-se, no reencontro do olhar, brilhará a alegria que só eles saberão traduzir. É esta alegria que tem de existir em todos os sacerdotes de um arciprestado quando se encontram e se olham no mesmo local. A solidão que tanto atormenta os homens e mulheres do nosso tempo, à qual estamos também sujeitos, “encontra no encontro” arciprestal um óptimo momento para ser ultrapassada. O antídoto da solidão está na rede de laços sociais com que tecemos a nossa vida, sendo que para nós sacerdotes, os laços entre nós mesmos, numa partilha colaborante da vida pastoral, será a melhor “teia de laços” para impedirmos que o “vírus” da solidão entre no nosso íntimo e corroia o nosso coração e apostolado. É bom que cada um possa dizer com Cleyde Yáconis: “Não sei o que é a solidão. Nunca me senti só”. Volto a insistir: só numa vivência de amizade sincera isso é possível, sendo o amigo essa pessoa de confiança, “alguém com quem posso ser sincero. Perto dele, posso pensar alto” (Ralph Waldo Emerson). E termino com as palavras de Ralph Waldo Emerson: “A única maneira de ter um amigo é sendo um”.
Pastoral – É sabido de todos que a Pastoral não deve ser planeada e executada de forma isolada e individualista, mas em comunhão com a Igreja Universal e Particular. Os encontros arciprestais são um momento oportuno para o sintonizar dos planos pastorais paroquiais com o plano pastoral Diocesano. Ali se podem trocar experiências e planos pastorais paroquiais por forma a um enriquecimento comum; com o contributo de todos, se constrói o plano pastoral arciprestal e se assumem compromissos conjuntamente; se traçam directrizes pastorais conjuntas que dão unidade pastoral a uma zona, evitando deste modo o contra-testemunho do “este faz assim e o outro assado”. Também é importante aproveitar estes momentos para a avaliação do trabalho desenvolvido e da “eficácia” da implementação dos programas pastorais, já que só uma projecção assente numa avaliação do passado e suas acções, poderá traduzir-se num trabalho mais frutuoso, pertinente e realista. Para este trabalho conjunto, exige-se o trabalho e compromisso de cada um, porque “se cada um varresse a calçada de sua casa, no fim do dia a rua toda estaria limpa” (Jean Vien Jean). Este trabalho de mãos dadas que permitirá que as nossas paróquias e o presbiterado seja cada vez mais o rosto alegre e santo de Cristo.
Ajuda – A forma de se exercer a ajuda é multiforme e díspar na sua aplicação, contudo, refiro-me aqui sobretudo aos “problemas”. A simbólica cognitiva dos “problemas-questões-situações” com que o padre se depara no exercício do múnus pastoral, será certamente entre os próprios padres que melhor compreensão há-de encontrar. Certamente que os problemas de medicina serão mais facilmente falados e entendidos se conversados entre os médicos e não com um “leigo” na matéria, assim também entre nós. Sabendo nós que só se partilha a vida e os problemas com quem temos confiança séria e sincera, urge fortalecer esses laços entre cada sacerdote, a fim de que a partilha aconteça. Da minha experiência afirmo: há muitas coisas que falo com pessoas amigas e minha família, mas tenho a certeza e a convicção que determinadas coisas só com um sacerdote encontrarão um horizonte de entendimento e compreensão desejável para a empatia real (colocar-se no lugar do outro para o ouvir, entender e ajudar). Não se trata de criar um gueto fechado mas uma presença atenta de partilha e ajuda.
A terminar estas palavras gostaria de manifestar a profunda alegria que foi a vivência desta experiência de seis anos, pela qual todos os sacerdotes deveriam passar. Foi um tempo de crescimento como sacerdote e homem, a experiência vivida de amizade com sacerdotes, uns da minha idade, outros bem mais idosos, mas que em grande amizade vivemos este tempo. Se “o bom povo faz o bom pároco” também o “bom clero arciprestal faz o bom arcipreste”. Para bom muito me falta, mas reconheço o bom momento vivido. Findo com estas palavras, nas quais acredito: “A glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você” (Ralph Waldo Emerson).
Roberto Rosmaninho Mariz
(Arcipreste de Vila Verde)

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