O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

9.7.06

Simpósio do Clero: O Seminário, Presbitério em gestação

Estamos todos habituados a dizer ou a ouvir dizer que o Seminário é um “viveiro”; a palavra aponta-nos para aí. Todos os dias, a quem nele trabalha e a quem nele pensa, não passa despercebida a obra maravilhosa de um grupo de rapazes, de jovens, vindos das mais variadas porções paroquiais da nossa família diocesana. No Seminário, eles são o eco da sinfonia maravilhosa do Amor que o Bom Pastor faz ressoar sobre famílias, paróquias e comunidades e que a alguns provoca.
Contemplar a beleza de cada dia que nasce e nele o encanto do “procurar Jesus, segui-l’O e permanecer com Ele (Jo.1,35-42), esta é a dinâmica essencial do Seminário como “presbitério em gestação”.
No viveiro, no Seminário, proporcionam-se condições de homogeneidade para que todos possam agarrar a vida de forma intensa. Há um ritmo de crescimento que se pretende e uma capacidade de autonomia que se cultiva. Atingidos estes, o transplante acontece, a vida continua, a marca do viveiro persiste e a intensidade da vida iniciada é fundamental para o percurso. Saídos do viveiro, continuarão a viver, autónomos mas numa comunhão efectiva com todos aqueles que fizeram o mesmo caminho.
No Seminário crescem jovens, vivem-se vidas que ganham sabor quando descobrem o encanto do dar-se, do viver com abundância. E isto, naquela atitude que corresponde à história de um inefável diálogo entre Deus e o Homem, entre o amor de Deus que chama e a liberdade do homem que no amor responde a Deus (P.D.V. 36). Isto é possível pela abertura ao dinamismo do “crescer em idade, sabedoria e graça”. Esta vida desenvolve-se na inquietação institucional de tudo fazer para que seja um amadurecimento humano, intelectual, espiritual e pastoral. Mais uma vez, são os quatro pilares que fazem possível o crescimento na graça baptismal, em Igreja, assumindo o desafio de abraçar a vocação sacerdotal.
Na dimensão humana pretende-se fazer espraiar a alegria, a tolerância, o sentido da verdade, a fidelidade à palavra dada e aos compromissos, a alegria de ser amigo e de se sentir bem ao serviço dos outros, a iniciativa humilde de ajudar os que mais precisam, o espírito de diálogo, o respeito incondicional pelo outro, o gosto pelo serviço gratuito.
Quanto à dimensão intelectual, trata-se de amadurecer no gosto pelo saber, no espírito de busca, no gosto pela leitura, pelo estudo, na atitude de abertura à formação, na inquietação contínua de profundidade.
Na dimensão espiritual pretende-se proporcionar o cultivo da capacidade de olharmos o mais profundo de nós mesmos e aí descobrirmos a presença do Amor que nos faz abrir o olhar de filhos chamados a percorrer o caminho do infinito das possibilidades sempre novas que nos movem o coração, a mente, a vida.
Na dimensão pastoral cultiva-se a capacidade sempre aprofundada de abraçar e abençoar todos aqueles que vemos, em quem pensamos e que sabemos que, como nós, são chamados ao Amor, à Felicidade, à Vida. Isto faz despertar um coração verdadeiramente católico, aberto à humanidade, à natureza, a toda a criação.

Uma comunidade original

O Seminário faz-nos sentir que “não foram a carne nem o sangue” que nos uniram num mesmo projecto. Todos somos chamados a saborear, num dia-a-dia cheio da novidade da vida, a riqueza de sermos filhos no Filho, a nobreza da nossa condição de templos do mesmo Espírito. A grande vantagem do Seminário é iniciar-nos progressivamente na capacidade de contemplar a grandeza e a beleza da vida em que tínhamos sido iniciados: o meu Baptismo, o Baptismo do irmão. O Seminário inicia-nos no mergulho responsável e adulto na fonte baptismal na qual todos renascemos. Jovens da mesma idade, com as mesmas experiências humanas, dão as mãos na aventura de crescer e viver no Espírito, na comunhão.
O Seminário a todos ensina a vida contida no Baptismo que, tendo feito de nós filhos de Deus, a todos nos impele a acolher a voz do Pai que chama e a perguntar-Lhe: “Que quereis de mim?”. Ao mesmo tempo que a todos faz descobrir esta grandeza de identidade, também de todos exige o crescimento na capacidade de olhar e amar essa mesma grandeza em cada irmão da comunidade do Seminário, em cada irmão baptizado. Descobrimos que somos enviados e amamos o irmão que, connosco e como nós, é enviado. Assim se cresce e se é iniciado no verdadeiro dinamismo da comunhão e da missão que é marca distintiva do presbitério que somos.
Assim sendo, o Seminário é verdadeiro “presbitério em gestação”. Por outro lado, verificamos que existe uma implicação directa, diríamos mesmo ontológica, de todo o presbitério com o Seminário. Para cada presbítero, olhar e amar o Seminário é olhar-se e amar-se a si mesmo e é garantia de fortalecimento da sua capacidade de olhar e amar os outros. O Seminário é “presbitério em gestação” e muito poderá receber da comunhão real/existencial de todo o presbitério. Todo o olhar lançado sobre a comunidade de vida do Seminário terá que incluir a “carga leve” da cumplicidade sadia. Amar o Seminário, para o presbitério, é manifestação de felicidade, de serenidade e, com toda a certeza, de fecundidade pastoral. O Seminário será, também ele, a família de acolhimento e de vida, de jovens que trazem no coração o tom dado pelo testemunho feliz dos pastores.
Para concluir, diríamos que o Presbitério é o Seminário em diáspora. Todos somos importantes para todos, muito teremos que dar, muito poderemos receber. A vontade de estar com os irmãos, o ideal do crescimento contínuo, pela via da formação intelectual, espiritual, humana e pastoral, são o segredo que fará de todo o presbitério, como verdadeira família, o verdadeiro sinal necessário do dinamismo do Reino de Deus.

P. Manuel Joaquim Fernandes da Costa.
Seminário de Nossa Senhora da Conceição.

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