O Bom Pastor:

Formação do Clero da Arquidiocese de Braga

30.7.06

Simpósio do Clero em Fátima: A união e cooperação fraterna entre os presbíteros como meio de edificação do Corpo de Cristo

“Os presbíteros elevados ao presbiterado pela ordenação, estão unidos, entre si numa fraternidade sacramental.”
Esta afirmação do n.º 8 da Presbyterorum Ordinis exprime não somente um dado comprovado pela experiência, mas uma exigência que encontra os seus motivos mais profundos e específicos na própria natureza do presbítero e do seu ministério. Esta verdade tão arraigada na Igreja actual e tão repetida em todas as instâncias (magisteriais, teológicas e pastorais) pode chegar a converter-se em mais um tópico, diante do qual nem se raciocina: dá-se por suposto, mas sem as maiores consequências operativas. Este artigo pretende ser apenas um alerta para que esta importante verdade generalizada não se fique em meras palavras, pois é preciso traduzi-la em atitudes concretas que, ao mesmo tempo que lhe dão realismo, servem de meio para a edificação do Corpo de Cristo neste dealbar do novo milénio.
A unidade e fraternidade, que os presbíteros são chamados a testemunhar, não serão compreendidas correctamente se as separarmos da missão a que são interpelados a viver. R. Blázquez diz que a comunhão sacerdotal “não é um conceito vago e impreciso ou uma espécie de sentimento de solidariedade sem concretização histórica; a comunhão é essencialmente uma realidade orgânica”. Daqui se depreende que não se trata de uma comunhão simplesmente psicológica ou jurídica, mas de comunhão sacramental que tem a sua origem no sacramento da Ordem, recebido pelo ministério do Bispo.
Fomos ordenados no seio de um presbitério. Na hora da nossa ordenação, depois do bispo, os padres presentes impuseram-nos as mãos. O nosso ministério é colegial, não sendo por isso possível responder às exigências da nossa missão sem uma actuação eclesial no seio do presbitério diocesano e em comunhão com a igreja diocesana. “Embora ocupados em diferentes obras, exercem o mesmo ministério sacerdotal em favor dos homens. Todos são enviados para cooperarem na obra comum, quer exerçam o ministério paroquial ou supra-paroquial, quer se dediquem à investigação científica ou ao ensino, quer se ocupem em trabalhos manuais compartilhando a sorte dos operários, onde isso pareça conveniente, quer realize qualquer outra obra apostólica orientada ao apostolado. Todos têm uma só finalidade, isto é, a edificação do corpo de Cristo que, especialmente em nossos dias requer múltiplas actividades e novas adaptações (…). Cada padre está unido aos outros por laços especiais de caridade apostólica, de ministério e fraternidade”.
A nossa unidade é de ordem sacramental, de ordem mística. Escolhidos por Cristo, somos um dom de Deus à sua Igreja e aos nossos irmãos padres. E isto tem consequências na compreensão do ministério sacerdotal: ele é dom de Deus à Igreja, não somos donos dele.
O facto de não nos sentirmos proprietários do ministério deve fomentar em cada sacerdote a vontade de viver com mais intensidade a comunhão, que também se realiza quando o padre vive a unidade e fraternidade com os outros presbíteros. Esta comunhão é um contributo e um auxílio para a nova evangelização em duas direcções diversas e complementares: a testemunhal (“para que o mundo acredite” Jo 17, 21) e a de eficácia (“todo o reino dividido será devastado e cairá casa sobre casa…” Lc 11, 17-18). É verdade, no dizer de João Paulo II, que a nova evangelização está destinada à formação de comunidades eclesiais maduras, isto é, comunidades capazes de dar um testemunho válido de Jesus Cristo salvador de todos os homens e do homem todo, e de ser fermento eficaz na criação de um mundo destinado a converter-se numa única e grande família; é óbvio que os ministros ordenados devem ser os principais impulsionadores desta comunhão eclesial. Manter hoje uma concepção de compartimentos estanques, isolados e indiferentes na Igreja é ir contra a história e fomentar o fracasso do sério compromisso da nova evangelização. Cabe aos sacerdotes, obreiros indispensáveis desta missão da Igreja, dar o exemplo na vivência da unidade e fraternidade com os irmãos.
Neste processo evangelizador a Eucaristia surge como alicerce estruturante da vivência correcta e sã da fraternidade sacerdotal. De facto, ao ser o centro da vida do sacerdote, ela deve ser também muito especialmente expressão e compromisso para o presbítero construir incansavelmente a comunhão, também com os outros padres, respeitando as suas diferenças. Ou seja, a Eucaristia promove a unidade na diversidade. Deste modo, pode-se afirmar que o padre é antes de mais e principalmente «o homem da comunhão». Este é o objectivo central e primeiro do seu ministério: a partir dela se entende, se justifica e se orienta o tríplice múnus que Jesus lhe confiou: ensinar, santificar e reger pastoralmente a Igreja. A celebração diária da eucaristia é escola de unidade e fraternidade porque interpela plenamente cada ministro na construção da verdadeira Igreja de Jesus Cristo.
É nesta escola que os presbíteros podem aprender a viver a comunhão em profundidade e autenticidade. Esta compreensão da comunhão permite-nos concluir mais claramente que a relação entre os presbíteros dentro do presbitério nunca deveria deixar de sublinhar o aspecto sacramental, só posteriormente é que é referida a sua concretização em formas de amizade, de colaboração, de solidariedade, de partilha e responsabilidade comum. Este carácter sacramental confere à unidade e cooperação uma dimensão também sobrenatural, de forma que a fraternidade sacerdotal aconteça pelo simples facto do outro ser membro do presbitério. O presbitério não é um clube de amigos, mas um grupo de discípulos empenhados na construção do Reino, sob o impulso do Espírito. O discipulado e a missão são os alicerces da nossa vida fraterna, da nossa família espiritual. A falta desta fraternidade pode levar alguns a não se sentirem inseridos e encantados nesta construção do reino de Cristo, inclusive pode algum desertar ou isolar-se. E se “um cristão isolado é um cristão em perigo”, um padre demasiadamente só, que não seja apoiado pelos seus colegas sacerdotes, é também um padre em perigo. Não podemos ficar indiferentes aos que se isolam. Urge ir ao encontro daqueles que “não se sentam à mesa das nossas actividades e vida e parecem não querer ‘levantar a taça’ da alegria do dom sacerdotal”.
A vida é tudo menos facilidade, e um grande desafio que se coloca à Igreja é encontrar formas ajustadas para uma melhor vivência em presbitério. Urge que a Igreja enfrente este desafio com esperança. Esta é crucial para que nasçam novos modos e formas de estar em presbitério. Aqui, não pode haver lugar para pessimismos, que vêem uma dificuldade em cada oportunidade; temos que ser optimistas, vendo uma oportunidade em cada dificuldade. Hoje a concretização da vivência em presbitério pode assumir formas novas de vida, principalmente as experiências da vida comunitária. A situação de isolamento, de desmotivação, de desencorajamento, de enclausuramento no ministério presbíteral é denunciada um pouco por todos. Ora, antes da solidão atingir e afectar profundamente a vida de um sacerdote a ponto de o impedir de agir na caridade, devem procurar-se caminhos alternativos para que tal não suceda. Assim, são necessárias quer a criação de formas de fraternidade entre padres, quer uma reforma das estruturas. É desta forma que se abrirão condições objectivas para que o padre possa sustentar as crescentes dificuldades, que não deve ser imposta, mas favorecida com decisão. “É um banco de prova: ou os padres estão em grau de viver o valor evangélico da fraternidade ou os seus discursos sobre espiritualidade cristã são parciais e aleatórios.”
É obvio que o presbitério não é nem uma comunidade cristã, nem uma congregação religiosa. No entanto, o sacramento recebido cria uma fraternidade evangélica de grande profundidade espiritual. Para se conseguir alcançar essa fraternidade entre os sacerdotes é fundamental nunca esquecer o seguinte: o seminário ser escola de comunhão; a pastoral procurar fomentar essa unidade; e cada sacerdote comprometer-se nessa causa. A fraternidade e cooperação presbiteral inicia-se no seminário mas tem de continuar ao longo de toda a vida.
O seminário há-de ser essa escola que educa para o respeito pelas diferenças e para a unidade plural e nunca para a uniformidade. Trata-se de uma fraternidade que respeita profundamente a liberdade de cada um, bem como as suas diferenças. Mas como lugar de aprendizagem não pode deixar de ser “presbitério em gestação”.
Uma nova cultura de unidade presbiteral há-de ser alimentada e concretizada pelas novas gerações de sacerdotes. Eles serão os primeiros e principais beneficiários dessa cultura, como forma de reestruturar o paradigma da vivência presbiteral. Face às novas exigências pastorais, a abertura à fraternidade entre pares é realidade a fomentar e potenciar.
A proposta do seminário para a formação de um presbitério coeso e fraterno necessita de ser continuada. No Seminário não se esgota toda a formação acerca da edificação do Corpo de Cristo. Por isso, ao longo de toda a vida sacerdotal é necessário fomentar uma grande união entre os padres diocesanos, através de encontros regulares onde possam estar juntos: rezar, conviver e partilhar as suas inquietações. Talvez as nossas reuniões diocesanas e arciprestais sejam muitas vezes absorvidas pela organização de actividades pastorais e não dão o tempo suficiente a esta experiência humana original que é a participação no presbitério.
No presbitério que formamos todos somos chamados a testemunhar cada vez com mais vigor a unidade e cooperação fraterna. Por isso, todos nos temos de comprometer em construir comunidade presbiteral. Nunca encontraremos o presbitério ideal. Muitas vezes o nosso ideal, impede-nos de aceitar a realidade. O Espírito de Deus não sopra no solo, mas no coração da realidade das pessoas. Deus colocou-nos juntos para nos ajudarmos a crescer no seu conhecimento, no seu amor e no seu serviço aos irmãos. Como escreveu o padre Chevrier: “A verdadeira unidade nasce da comunhão com um mesmo espírito, um mesmo pensamento, um mesmo amor, cujo centro é Jesus Cristo, pelo Espírito Santo. Permaneçam em mim e Eu em vocês, que estejamos uns nos outros e que olhando para uns se veja os outros: assim está formada a verdadeira família, a verdadeira comunidade, a verdadeira união; os mesmos pensamentos, os mesmos pontos de vista, as mesmas inspirações em Jesus Cristo.”
Ciente que poderíamos ter enveredado a nossa breve reflexão por outros caminhos, limitei-me, a partir de uma compreensão correcta de comunhão, a alertar para a importância da unidade e fraternidade dos padres entre si. Este é um caminho visível da edificação do Corpo de Cristo. Às vezes no nosso ministério de sacerdotes limitamo-nos a fazer o que é urgente e esquecemos o que é importante: a unidade e fraternidade dos padres. Eis porque devemos discernir constantemente entre o urgente e o importante, para que o nosso ministério não se reduza ao cumprimento habitual de tarefas urgentes; mas tenha a densidade e a simplicidade do amor, que vê o essencial.
Termino com um decálogo sobre a forma da vida sacerdotal. Nele, os autores Breuning e Hemnerle, querem sublinhar que a unidade e fraternidade sacerdotal são provocação para aquilo que é importante na vida dos sacerdotes.



1. É mais importante o modo como vivo, enquanto padre, do que aquilo que faço como padre;
2. É mais importante o que Cristo faz em mim, do que aquilo que eu próprio faço;
3. É mais importante viver a unidade no presbitério do que entregar-me sozinho a uma tarefa;
4. É mais importante o serviço da Oração e da Palavra, que o serviço das mesas;
5. É mais importante acompanhar espiritualmente os colaboradores do que fazer, por si só, todo o trabalho possível;
6. É mais importante estar sem reservas nalguns pontos do que estar à pressa e a meias em todos;
7. É mais importante actuar em unidade, que actuar na perfeição, mas isoladamente. Portanto, é mais importante a colaboração do que o trabalho, a comunhão do que a acção;
8. É mais importe, porque mais fecunda, a cruz do que a eficácia;
9. É mais importante a abertura à totalidade (comunidade, diocese Igreja Universal) do que o interesse particular, por muito importante que ele seja;
10. É mais importante dar testemunho de fé a todos do que satisfazer todos os compromissos habituais.

P. Vitor Novais
(Responsável pelo acompanhamento dos Padres mais novos
e pároco de St. Adrião e Brufe)

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